sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

era uma tarde de verão. fazia um calor insuportável e a fome devastava a cidade, mas nada era maior que a minha fé. quando, ao passar pela ingreja, encontrei um rapaz muito distinto, branco, com um sorriso encantador que me chamou a atenção. seu nome era John. conversamos um pouco e descobri que ele era o novo voluntário enviado para o orfanato que eu trabalho no Haiti. ele me perguntou o que eu estava a fazer, eu lhe disse que estava indo fazer uma oração pelas minhas crianças como de costume e ele resolveu me acompanhar. entramos, oramos durante alguns minutos e fomos para o nosso destino. fomos nos conhecendo mais e mais e, a cada dia que se passava, eu percebia o ser maravilhoso que estava ao meu lado, me ajudando. ele parecia um anjo devido a tamanha bondade. por fim, nos apaixonamos e começamos a viver uma linda história de amor. costumávamos dizer que todas aquelas crianças do orfanato eram nossos filhos e que os amaríamos até o fim. os dias se passaram e uma grave notícia nos afetou: uma de nossas crianças sofria de uma doença incurável e degenerativa. foi o começo de um sofrimento sem fim. todos da comunidade foram abalados e começamos uma guerra em busca de momentos felizes pra ficarem marcados na memória de todos e, para que ele fosse lembrado por seu sorriso e não pelo seu sofrimento. desde essa descoberta desagradável, passamos a levar essa criança para o padre abençoar e para orar conosco na igreja. algo me intrigava nele, pois seu lugar predileto era diante de um crucifixo com a imagem de Jesus que ficava meio a esquerda. seu olhar penetrava como um raio aquela imagem como se pedisse socorro e ao mesmo tempo agradecesse. isso mexia muito, não só comigo, mas com John também, que certo dia chegou a chorar timidamente enquanto observava a cena. enquanto isso, a vida continuava e, de repente, descobri que estava esperando um filho de John. nunca fiquei tão feliz na vida! eu estava com cinco meses de gravidez, quando fomos a igreja assistir uma palestra. levamos o nosso pequeno para ver também. sentamos na frente do crucifixo que ele tão adorava e passamos aquele momento todo com as mãos dadas, como se algo tivesse nos prendendo... foi quando eu resolvi ir tomar um ar. não deu mais tempo pra nada, só vi o mundo desabando ao meus pés, ao meu lado e, quando olhei pra trás, não havia mais nada, além do crucifixo intacto. senti na hora que o grande amor da minha vida e o meu "filho" haviam partido, juntos. senti uma brisa, como se eu houvesse entrado em transe, como se um anjo viesse tirar toda a dor da criança e lhe dado um suporte. um filme passou em minha cabeça, senti como se as mãos de John segurassem as minhas, me protegendo. um sentimento surreal e assustador. hoje, alguns dias depois dessa tragédia, estou tentando salvar minhas crianças, mas com a certeza de que John nunca me deixará. percebi que ele foi um anjo que me deu a maior certeza de que eu nunca estive sozinha.

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